Crear e Criar - H. Rohden


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A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

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O mestre é um espelho vazio - Osho


Eu sou quem quer que você pense que eu sou, porque isso depende de você.
Se você olhar para mim num vazio total, eu serei de uma maneira.
Se olhar para mim com idéias na mente, essas idéias vão me colorir.
Se se aproximar de mim com preconceito, então serei de outra maneira.
Eu sou apenas um espelho. A sua face será refletida nele.
Assim, depende da maneira como me olha.
Eu desapareci completamente; portanto, não posso impor a você quem sou.
Nada tenho para impor.
Existe apenas um vácuo, um espelho.
Agora você tem completa liberdade.
Se quiser realmente saber quem sou, você precisa estar tão absolutamente vazio quanto eu.
Desse modo, dois espelhos estarão um diante do outro, e só o vazio será refletido.
Um vazio infinito será refletido: dois espelhos se olhando.
Mas se existir em você alguma idéia, então você verá sua própria idéia em mim.

A Maneira de Amar - Osho


O rio passa ao lado de uma árvore, cumprimenta-a, alimenta-a, dá-lhe água...
e vai em frente, dançando. Ele não se prende à árvore.
A árvore deixa cair suas flores sobre o rio em profunda gratidão,
e o rio segue em frente. O vento chega, dança ao redor da árvore e segue em frente.
E a árvore empresta o seu perfume ao vento... Se a humanidade crescesse,
amadurecesse, essa seria a maneira de amar.

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A Música de sua Vida - Osho




Na quietude de uma noite alguém está tocando uma flauta...
A luz da lua parece estar congelada
Esta fria noite de solidão
E as notas da flauta vindo de longe
Doce como um sonho

Tudo isso é inacreditavelmente lindo
Quanto néctar um bambu oco pode despejar?

A vida também é como uma flauta
Vazia e oca em si mesma
Mas ao mesmo tempo tem uma capacidade ilimitada para notas de melodia
Mas tudo depende do tocador
A vida se torna o que a fazem dela
É uma criação inesperada

É meramente uma oportunidade
Que tipo de música a pessoa quer tocar
É uma decisão inteiramente pessoal

Essa é a dignidade do homem
Que ele é livre para tocar músicas
Tanto do céu quanto do inferno

Qualquer um pode criar achando notas em sua flauta
Isto é apenas uma questão de combinações certas com os dedos
Um pequeno treino e a obtenção é imensa
O império de infinitas vidas é obtido por não se fazer nada

Eu gostaria de dizer para cada e todo coração...
Pegue sua flauta
O tempo está passando rápido
Veja a oportunidade de tocar a música
Não tão perto de antes que a cortina caia

Então você tem que tocar a música de sua vida.

No silêncio... - Krishnamurti


No silêncio da noite e na serena tranquilidade da manhã, quando o Sol começa a iluminar os montes, apercebemo-nos de um grande mistério. Este mistério está em todas as coisas vivas. Se nos sentamos debaixo de uma árvore, sentimos este velho planeta com todo o seu incompreensível mistério. Na quietude da noite, quando as estrelas cintilam e parecem estar muito próximas, temos consciência do espaço a expandir-se e da ordem misteriosa de todas coisas, do imensurável e também do nada, do movimento dos montes na escuridão e do grito da coruja.
Nesse completo silêncio da mente, o mistério vai aumentando, sem tempo nem espaço... A experiência é a morte desse indizível mistério...para estar em comunhão com esse mistério, a nossa mente, o todo que nós somos deverá estar no mesmo nível, sincronizado, com a mesma intensidade que isso a que chamamos misterioso. E isso é amor. Com este amor todo o mistério do universo se abre.

Polaridade positiva-negativa (Mooji)


"Medite sobre o aspecto positivo da vida e então sobre o negativo.
Depois coloque ambos de lado, pois você não é nenhum deles.
Olhe para isso desse jeito. Medite sobre o nascimento: uma criança nasceu, você nasceu. Então você cresce, torna-se jovem. Medite sobre todo esse crescimento. Daí você se torna velho e morre. Desde o próprio começo... imagine o exato momento em que seu pai e sua mãe conceberam você, no útero de sua mãe, desde a primeira célula.
Olhe de lá até o final quando o seu corpo está queimando numa pira funerária e todos os seus parentes estão de pé ao seu redor. Então coloque ambos de lado, aquele que nasceu e aquele que morreu. Simplesmente coloque ambos de lado e olhe para dentro de si. Lá está você - aquele que nunca nasceu e que nunca vai morrer.

Você pode fazer isso com qualquer polaridade positiva-negativa. Você está sentado aqui. Eu olho para você, eu conheço você. Então, eu fecho os olhos e você não está mais aí; eu não conheço você. Então coloco ambos de lado: o conhecimento do que eu conheço e o conhecimento do que eu não conheço. Você estará vazio, porque quando você põe de lado o
conhecimento e o não-conhecimento, você fica vazio.

Existem dois tipos de pessoas: algumas são preenchidas com conhecimento e outras são preenchidas com ignorância. Existem pessoas que dizem, 'nós sabemos'. O ego delas subiu com o conhecimento. E existem pessoas que dizem, 'nós somos ignorantes'. Elas estão preenchidas com a ignorância...
Elas dizem, 'nós somos ignorantes, nós não sabemos'. Um é identificado com o conhecimento e o outro com a ignorância. Mas ambos possuem alguma coisa, ambos valorizam alguma coisa. Empurre ambos para o lado, o conhecer e o não-conhecer, assim você não é nem a ignorância, nem o conhecimento.
Coloque ambos de lado, o positivo e o negativo. Então quem é você? De repente, o 'quem' será revelado a você. Você se tornará consciente do além, daquilo que transcende. Colocando ambos de lado, o positivo e o negativo, você estará vazio. Você será nenhum, nem sábio nem ignorante.
Coloque ambos de lado, o ódio e o amor; coloque ambos de lado, a amizade e a inimizade. Quando ambas as polaridades forem colocadas de lado, você estará vazio.

Mas esse é o truque da mente: ela pode colocar um de lado, mas nunca os dois juntos. Ela pode colocar um de lado - você pode colocar a ignorância de lado, então você se agarra ao conhecimento. Você pode colocar a dor de lado, mas aí você se agarra ao prazer. Você pode colocar os inimigos de lado, mas aí você se agarra aos amigos. E existem algumas poucas pessoas que fazem justamente o contrário: elas colocam os amigos de lado e se agarram aos inimigos; elas colocam o amor de lado e se agarram ao ódio, elas colocam a riqueza de lado e se agarram à pobreza; elas colocam o conhecimento e as escrituras de lado e se agarram à ignorância. Essas pessoas são grandes renunciadores. Qualquer coisa que você se agarra, elas colocam de lado e se agarram ao oposto - mas elas se agarram do mesmo jeito.
Agarrar-se é o problema, porque se você se agarra, você não consegue esvaziar-se. Não se agarre; esta é a mensagem dessa técnica. Simplesmente não se agarre a nada, positivo ou negativo, porque com o não-agarrar-se você encontrará a si mesmo. Você está aí, mas por causa desse agarrar, você está escondido. Com o não-agarrar você estará exposto, você estará descoberto. Você explodirá.

Samadhi - Paramahansa Yogananda


"Levantados os véus de luz e sombra,
Evaporada toda a bruma de tristeza,
Singrado para longe todo o amanhecer de alegria transitória,
Desvanecida a turva miragem dos sentidos.

Amor, ódio, saúde, doença, vida, morte:
Extinguiram-se estas sombras falsas na tela da dualidade.

A tempestade de maya serenou
Com a varinha mágica da intuição profunda.

Presente, passado, futuro, já não existem para mim,
Somente o Eu sempiterno, onifluente, Eu, em toda parte.

Planetas, estrelas, poeira de constelações, terra,
Erupções vulcânicas de cataclismos do juízo final,
A fornalha modeladora da criação,
Geleiras de silenciosos raios X, dilúvios de elétrons ardentes,
Pensamentos de todos os homens, pretéritos, presentes, Futuros,
Toda folhinha de grama, eu mesmo, a humanidade,
Cada partícula da poeira universal,
Raiva, ambição, bem, mal, salvação, luxúria,
Tudo assimilei, tudo transmutei
No vasto oceano de sangue de meu próprio Ser indiviso.

Júbilo em brasa, freqüentemente abanado pela meditação,
Cegando meus olhos marejados,
Explodiu em labaredas imortais de bem-aventurança,
Consumiu minhas lágrimas, meus limites, meu todo.

Tu és Eu, Eu sou Tu,
O Conhecer, o Conhecedor, o Conhecido, unificados!

Palpitação tranqüila, ininterrupta, paz sempre nova,
Eternamente viva.

Deleite transcendente a todas as expectativas da imaginação,
Beatitude do samadhi!

Nem estado inconsciente,
Nem clorofórmio mental sem regresso voluntário,
Samadhi amplia meu reino consciente
Para além dos limites de minha moldura mortal
Até a mais longínqua fronteira da eternidade,
Onde Eu, o Mar Cósmico,
Observo o pequeno ego flutuando em Mim.

Ouvem-se, dos átomos, murmúrios móveis;
A terra escura, montanhas, vales são líquidos em fusão!

Mares fluidos convertem-se em vapores de nebulosas!

Om sopra sobre os vapores, descortinando prodígios.

Mais além,
Oceanos desdobram-se revelados, elétrons cintilantes,
Até que ao último som do tambor cósmico,
Transfundem-se as luzes mais densas em raios eternos
De bem-aventurança que em tudo se infiltra.

Da alegria eu vim, para a alegria eu vivo, na sagrada alegria,
Dissolvo-me.

Oceano da mente; bebo todas as ondas da criação.

Os quatro véus do sólido, líquido, gasoso, e luminoso,
Levantados.

Eu, em tudo, penetro no Grande Eu.

Extintas para sempre as vacilantes, tremeluzentes sombras,
Das lembranças mortais:
Imaculado é meu céu mental – abaixo, à frente e bem acima;
Eternidade e Eu, um só raio unido.

Pequenina bolha de riso, eu,
Converti-me no próprio Mar da Alegria."

A abelha de minha mente ama beber do lótus azul de Teus pés

"Ó Mãe Divina, a abelha de minha mente se absorveu em Teus pés de lótus de luz azul. Ela bebe o mel de Teu amor maternal. Essa Tua abelha real não beberá outro mel que não seja o que é agraciado por Teu perfume.
Ó Mãe Divina, voando acima de todos os jardins de minha fantasia, negando a mim mesmo o mel de todos os prazeres, afinal encontrei a secreta ambrosia de Teu coração de lótus.
Eu era Tua abelha atarefada, que voava pelos campos das encarnações, aspirando o alento das experiências; já não vagarei, pois Tua fragrância apagou a sede de perfume de minha alma."
(Sussurros da Eternidade, ed. 1949)

Você é como o espaço vazio... (Mooji)


Você é como o espaço vazio no qual o vento sopra.

A natureza do vento é mover-se de um lugar para o outro, mas o espaço é infinito e quieto e, sendo infinito, é incapaz do menor movimento.
Não pode haver vento sem espaço, mas pode haver espaço sem vento.

O espaço não é perturbado pela atividade do vento, nem uma brisa suave, nem um furacão o afetam em absoluto.
Similarmente, você, o Ser, é ilimitado e imóvel como o espaço, mas você se identifica com os movimentos da mente-vento brincando dentro de você, e se esquece da sua verdadeira natureza.

Osho - O Rio e o Oceano

Diz-se que, mesmo antes de um rio
cair no oceano, ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada:
os cumes, as montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados,
e vê a sua frente um oceano tão vasto
que entrar nele nada mais é
do que desaparecer para sempre.

Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência.
Você pode apenas ir em frente.

O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano
é que o medo desaparece,
porque apenas então o rio saberá que
não se trata de desaparecer no oceano.
Mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento
e por outro lado é renascimento.

Assim somos nós.
Voltar é impossível na existência.
Você pode ir em frente e se arriscar.
Coragem!

Ramana Maharshi


"QUEM SOU EU?
EU TENHO UM CORPO, MAS EU NÃO SOU MEU CORPO.
EU POSSO VER E SENTIR MEU CORPO,
E O QUE PODE SER VISTO E SENTIDO NÃO É O VERDADEIRO VIDENTE.
MEU CORPO PODE ESTAR CANSADO OU EXCITADO,
DOENTE OU SAUDÁVEL, PESADO OU LEVE,
MAS ISSO NADA TEM A VER COM MEU EU INTERIOR.
EU TENHO UM CORPO, MAS EU NÃO SOU MEU CORPO.

EU TENHO DESEJOS, MAS EU NÃO SOU MEUS DESEJOS, EU POSSO CONHECER MEUS DESEJOS,
E O QUE PODE SER CONHECIDO NÃO É O VERDADEIRO. CONHECIDO.
DESEJOS VÊM E VÃO, FLUTUANDO ATRAVÉS DE MINHA PERCEPÇÃO,
MAS ELES NÃO AFETAM MEU EU INTERIOR.
EU TENHO DESEJOS, MAS NÃO SOU DESEJOS.

EU TENHO EMOÇÕES, MAS EU NÃO SOU MINHAS EMOÇÕES.
EU POSSO SENTIR MINHAS EMOÇÕES,
E O QUE PODE SER SENTIDO NÃO É O VERDADEIRO SENCIENTE.
AS EMOÇÕES PASSAM ATRAVÉS DE MIM,
MAS ELAS NÃO AFETAM MEU EU INTERIOR.
EU TENHO EMOÇÕES, MAS EU NÃO SOU EMOÇÕES.

EU TENHO PENSAMENTOS, MAS EU NÃO SOU MEUS PENSAMENTOS.
EU POSSO CONHECER E INTUIR MEUS PENSAMENTOS,
E O QUE PODE SER CONHECIDO NÃO É O VERDADEIRO CONHECEDOR.
PENSAMENTOS VÊM A MIM E PENSAMENTOS ME DEIXAM,
MAS ELES NÃO AFETAM MEU EU INTERIOR.

EU TENHO PENSAMENTOS, MAS NÃO SOU MEUS PENSAMENTOS.
EU SOU O QUE PERMANECE, UM CENTRO PURO DE PERCEPÇÃO,
UMA TESTEMUNHA IMPASSÍVEL DE TODOS ESSES
PENSAMENTOS, EMOÇÕES, SENTIMENTOS E DESEJOS."

A Profunda Verdade da Existência Humana



"[...] Quando digo isso, pode soar um tanto abstrato, interessante, mas abstrato. 'Existência Humana.' Pode soar um tanto filosófico, mas isso não é uma aula sobre filosofia, nem é de nenhum modo uma aula.
O ponto básico de como se deve olhar isso é como sendo uma meditação.
...
Quando digo 'a mais profunda verdade da existência humana' isso soa um tanto distante de suas preocupações diárias... Então vamos colocá-lo de outro modo. Estamos aqui para explorar a mais profunda verdade sobre quem você é. Porque você é a existência humana.
...
Conhecer a si mesmo no mais profundo nível.
Um nível tão profundo que conhecer você e conhecer a Deus se torna o mesmo.
[...]"

Existe uma razão para nossa Existência?


Pergunta: Afirmam alguns filósofos que a vida tem finalidade e significação; outros, porém, sustentam que a vida puramente acidental e absurda. Que dizeis vós? Negais o valor dos alvos, dos ideais e intenções; mas, sem isso, tem a vida alguma significação?

KRISHNAMURTI: Devemos atribuir tanta importância ao que dizem os filósofos? Certos intelectuais dizem que a vida tem finalidade, significação, enquanto outros dizem que ela é acidental e absurda. Ora, cada um a seu modo, negativa ou positivamente, tanto uns como outros estão conferindo significação à vida, não achais? Um afirma, outro nega, mas essencialmente os dois são iguais. Isso é perfeitamente claro.
Pois bem. Quando perseguis um ideal, um objetivo, ou indagais qual é a finalidade da vida, tal indagação ou busca está baseada no desejo de dar significação à vida, não está? Não sei se estais seguindo isto.

Minha vida é insignificante — suponhamos — e trato, pois de dar-lhe significação. Pergunto: “Qual é a finalidade da vida?” — porque, se a vida tem alguma finalidade, poderei então viver em harmonia com essa finalidade. E, assim, invento ou imagino uma finalidade, ou, pela leitura, pela investigação, pela busca, encontro uma finalidade; estou, por conseguinte, dando significação à vida. Como o intelectual, à sua maneira, dá significação à vida, negando ou afirmando que ela tem finalidade e um significado, nós também atribuímos significação à vida por meio de nossos ideais, da busca de um alvo, de Deus, de Amor, da Verdade. E isso, com efeito, significa que, se não damos significação à vida, nossa existência não terá para nós importância alguma. O viver não nos parece tão bom como desejaríamos que fosse, e por isso desejamos dar significação à vida. Não sei se estais percebendo isto.

Qual é a significação de nossa vida, da vossa e da minha, independentemente dos filósofos? Ela tem alguma significação, ou lhe estamos dando significação pela crença, tal como faz o intelectual que se torna católico, isto ou aquilo, encontrando assim um abrigo? Como seu intelecto reduziu tudo a cacos, ele se vê agora sozinho, desamparado, etc., e não podendo suportar tal estado, necessita de uma crença, no catolicismo, no comunismo, em qualquer coisa que lhe dê alento e dê significação à sua vida.

Agora, pergunto a mim, mesmo: Por que razão queremos uma finalidade? E que significa viver sem finalidade alguma? Compreendeis? Sendo a nossa vida vazia, atribulada, triste, precisamos dar-lhe uma significação. E há possibilidade de ficarmos cônscios de nosso vazio, nossa solidão, nossos sofrimentos, todas as tribulações e conflitos de nossa existência, sem darmos, artificialmente, um significado à vida? Podemos estar cônscios dessa coisa extraordinária que chamamos a vida — que significa ganhar o próprio sustento, que significa inveja, ambições e desenganos — estar cônscios, simplesmente, de tudo isso, sem condenação ou justificação, e passar além? A mim me parece que, enquanto estivermos procurando ou dando uma significação à vida, estaremos perdendo algo de extraordinariamente vital. O mesmo acontece com o homem que quer achar a significação da morte e está constantemente empenhado em racionalizá-la, explicá-la, e impedido, assim, de “experimentar” o que é a morte. Apreciaremos este ponto noutra palestra.

Não nos estamos esforçando, todos nós, para acharmos uma razão para nossa existência? Quando amamos, temos uma razão para isso? Ou é o amor o único estado em que “não há razão de espécie alguma, nem explicação, nem esforço, nem luta para ser alguma coisa?” Talvez desconheçamos esse estado. E, desconhecendo-o, tentamos imaginá-lo, dar uma significação à vida; mas, como nossa mente está condicionada, e, portanto é limitada, superficial, a significação que damos à vida, os nossos deuses, os nossos ritos, os nossos esforços, tudo é também medíocre.

Não importa, pois, que descubramos por nós mesmos qual a significação que damos à vida, se o fazemos? Não há dúvida de que os intentos, os alvos, os Mestres, os deuses, as crenças, os fins em que buscamos nosso preenchimento, são todos inventados pela mente, todos produtos de nosso próprio condicionamento; e, compreendendo-se isto, não é importante “descondicionar” a mente? Quando a mente não está mais condicionada e, por conseguinte, não está dando significação à vida, a vida se torna então uma coisa extraordinária, uma coisa totalmente diferente da estrutura construída pela mente. Mas, primeiro que tudo, precisamos conhecer o nosso condicionamento, não é verdade? E podemos conhecer nosso condicionamento, nossas limitações, nosso fundo, sem procurar forçá-lo ou analisá-lo, sublimá-lo ou reprimi-lo? Pois tal processo implica a entidade que observa e se separa da coisa observada, não é exato? Enquanto houver observador e coisa observada, o condicionamento tem que continuar. Por mais que o observador, o pensador, o censor lute para livrar-se de seu condicionamento, continuará preso nesse condicionamento, uma vez que a divisão entre “pensador” e “pensamento”, “experimentador” e “experiência”, é o próprio fator que perpetua o condicionamento; e é extremamente difícil fazer desaparecer tal divisão, uma vez que aí está presente todo o problema da vontade.

Existe uma Vida Futura? - Krishnamurti


Interessam-se realmente por isso? Suponho que sim, pois, de outro modo, não fariam a pergunta. Mas, um momento: por que perguntam se existe uma vida futura? Só por divertimento, curiosidade, porque estão atemorizados com o presente e, portanto, pretendem saber qual será o futuro, ou simplesmente para aprender? Ora, sabem que alguns cientistas modernos, bem conhecidos, estão afirmando que existe uma vida futura. Dizem eles que, através de médiuns, podemos descobrir que existe uma vida após a morte.

Muito bem, tomemos isso como decidido, que ela existe. Que acontece se existir uma vida futura? Que fizeram ao descobrir que existe uma vida futura? Não são, por isso, nem mais felizes nem mais inteligentes nem mais humanos nem mais sensatos nem afetuosos. Estão onde sempre estiveram. Tudo que aprenderam foi outro fato - o de que existe uma vida depois desta. Isso pode ser um consolo, mas o que resulta daí? Dirão: "Isso me dá a certeza de que viverei na próxima vida". Mais uma vez: o que decorre daí? Mesmo que isso lhes dê a certeza de que viverão, defrontam-se ainda com os mesmos problemas, os mesmos aborrecimentos, as mesmas alegrias e prazeres transitórios, não obstante exista outra vida. Para mim, embora ela seja um fato, é de pouca importância. Senhor, a imortalidade não está no futuro; a imortalidade, a eternidade, ou como queiram chamá-la, está no agora, no presente, e só poderão compreender o presente quando a mente estiver liberta do tempo.

Receio tornar-me, agora, um tanto metafísico, mas espero que não se incomodem. E não é, realmente, ser metafísico. Enquanto a mente for escrava do tempo, tem de haver o temor da morte, o temor e a esperança de uma vida futura e uma constante investigação do problema. Isso significa que, enquanto houver temor, haverá uma lenta decadência, uma morte lenta, embora continuem vivos. A própria indagação quanto ao futuro evidencia que já estão morrendo. Para viver completamente, para viver na plenitude do presente, no eterno agora, a mente precisa estar liberta do tempo. Não é assim? Não estou usando essa palavra na acepção comum, no sentido de tomar um navio ou um trem na data marcada etc.; estou empregando a palavra com o significado de memória. Se, a cada manhã, nascessem de novo, renovados, sem as lembranças de ontem, sem os fardos nem a carga do passado, então cada dia seria novo, cheio de vida, simples e, no viver assim, estariam libertos do tempo. Isso quer dizer que a mente se tornou um armazém da memória atormentada pelo passado, sobrecarregada das incontáveis experiências que já realizamos.

Espero que, por favor, pensem comigo sobre tudo isso, pois, do contrário, nada compreenderão. O que acontece com o fardo do passado, com a carga das inúmeras recordações é que enfrentamos cada nova experiência, cada novo pensamento, cada novo ambiente, cada novo dia sobrecarregados com o cenário do passado; é assim que defrontamos o presente. Não é isso? Se são cristãos, têm como base a mente cristã, os dogmas cristãos, as crenças e tradições cristãs e tentam enfrentar a vida com tais idéias. Se forem socialistas ou qualquer outro tipo de pessoa, terão certos preconceitos, certas idéias, certos dogmas bem definidos e encararão a vida com esse fundo, com esses óculos. Assim, pois, estão continuamente enfrentando o presente com o fundo do passado e, por isso, não compreendem o presente. Essa permanente incapacidade de compreensão cria a memória e produz o acúmulo e a intensificação da memória; daí, o desejo de saberem se voltarão a viver na próxima vida. Se, no entanto, olharem tudo que é novo com mente não infeccionada, com mente não sobrecarregada pela possessividade do passado nem com a perspectiva do futuro, verão que não existe essa coisa de morte, verão que não há mais temor. A vida, então, se tornará um êxtase contínuo e, não, uma luta terrível, pavorosa; para isso, porém, precisamos estar muito alertas, conscientes do pensamento, com a mente e o coração no presente.

Receio que o interrogante esteja desapontado. Ele deseja saber se há ou não há - quer uma resposta categórica: sim ou não. Lamento não haver resposta categórica para dar. Cuidado com as respostas categóricas - sim e não. Não será, na realidade, mais importante saber viver do que verificar o que acontece quando se morre? Só aquele que já está morrendo é que quer saber o que acontece após a morte; não aquele que está vivo. Perguntemos e procuremos, portanto, como viver ricamente, humanamente, completamente, divinamente em vez de tentar averiguar o que está para além. Saberão, depois, o que está para além, quando souberem como viver supremamente, inteligentemente. Só então saberão o que está para além. Mas essa descoberta, então, não será uma coisa teórica; será um fato.

Ai, então, vão descobrir que isso tem muito pouca significação, pois não existe além. A vida é um todo completo, sem começo nem fim. É esse êxtase, essa sabedoria, que produz a plenitude do viver no presente.

Não Sou Minha Mente


(Eckhart Tolle)
Se for usada corretamente, a mente é um instrumento magnífico. Entretanto, como a usamos de forma errada, ela se torna destrutiva. Para ser ainda mas preciso, não é você que usa a sua mente de forma errada. Em geral, você simplesmente não usa a mente. É ela que usa você. Essa é a doença. Você acredita que é a sua mente. Eis aí o delírio. O instrumento se apossou de você. Pergunto então: você consegue se livrar da sua mente quando quer?! Já encontrou o botão que a "desliga" ?! Não? Então é a mente que está usando você. Estamos tão identificados com ela que nem percebemos que somos seus escravos. A liberdade começa quando percebemos que não somos a entidade dominadora, o pensador. Saber disso nos permite observar a entidade. Ao fazer isso, começamos a perceber um nível mais alto de consciência, uma vasta área de inteligência além do pensamento. Percebemos também que todas as coisas realmente importantes como o amor, a criatividade, a alegria e a paz interior surgem de um ponto além da mente.
É quando começamos a acordar.

Diálogo sobre Experiência Espiritual - Krishnamurti


A maioria de nós tem tido profundas “experiências” – ou que outro nome lhes queirais dar – temos tido inspirações portadoras de êxtase sublime, de visões grandiosas, de intenso amor. Essas “experiências” nos invadem com a sua luz e alento; mas não perduram: passam, deixando o seu perfume.

Acontece com a maioria de nós que a mente-coração não é capaz de permanecer aberta para tal êxtase. A “inspiração” é acidental, não provocada, grande demais para a nossa mente-coração. A inspiração é maior do que aquele que a experimenta, e por isso procura ele abaixá-la ao seu próprio nível, à órbita de sua compreensão. Sua mente não está tranqüila; está ativa, rumorosa, reordenando; tem de ocupar-se de alguma maneira com aquela inspiração; tem de organizá-la, divulgá-la, comunicar a outros a sua beleza. Reduz, por essa maneira, a mente o inexpressível a um padrão de autoridade ou regra de conduta; interpreta e traduz a “experiência”, envolvendo-a, assim, na sua própria trivialidade. Por não saber cantar, a mente-coração persegue o cantor.

O intérprete, o tradutor da inspiração, deve ser tão profundo e vasto quanto ela, se a deseja compreender; não o sendo, deve desistir de interpretá-la, e para desistir ele precisa de estar maduro, de ser judicioso, na sua compreensão. Podeis ter uma “experiência” significativa, mas como a compreendeis, como a interpretais, depende de vós, o seu intérprete; se vossa mente-coração é limitada, acanhada, traduzis a experiência, então, conforme esse condicionamento. O condicionamento é que deve ser compreendido e desfeito, para que possais apreender o pleno significado da “experiência”.

A madureza da mente-coração advém quando ela se liberta de suas próprias limitações e não quando se apega à lembrança de uma “experiência” espiritual. Se se apega à memória, então ela habita com a morte e não com a vida. Uma experiência profunda pode abrir a porta para a compreensão, para o autoconhecimento e o reto pensar, mas, para muitas pessoas ela se torna apenas um estímulo agitante, uma lembrança, perdendo logo o seu significado vital, e impedindo a continuação da “experiência”.

Interpretamos toda inspiração em termos de nosso próprio condicionamento. Quanto mais profunda é a inspiração, tanto mais vigilantes devemos estar para a não interpretarmos erroneamente. São raras as inspirações profundas e espirituais, e quando as temos, nós as rebaixamos ao nível rasteiro de nossa própria mente-coração. Se sois cristão, ou hinduísta, ou incrédulo, traduzis a inspiração de maneira correspondente, abaixando-a ao nível de vosso condicionamento. Se vossa mente-coração é dada ao nacionalismo e à cupidez, à paixão e à malevolência, será, nesse caso, a inspiração utilizada para fomentar a matança de vossos semelhantes; vós a tomais então por guia para bombardeardes vosso irmão; adorar será então destruir ou torturar os que não são vossos compatriotas ou correligionários.

É essencial que estejais cônscios de vosso condicionamento, em vez de procurardes “ocupar-vos” de uma experiência passada; mas a mente-coração apega-se a tais experiências, ficando assim incapacitada para compreender o presente vivo.

O INDIVÍDUO E SEU DHARMA


I. K. Taimni
(Destacado e erudito teósofo hindu, doutor em Química pela Universidade de Londres, foi professor de pós-graduação e pesquisador em Química na Universidade de Allahabad. Versado na filosofia indiana, na prática da Yoga e nos princípios da Teosofia.)

(Extraído do livro Estúdios sobre la Psicologia de la Yoga, de I.K. Taimni, editado pela Federación Teosófica Interamericana, Buenos Aires, 1982).

Tradução: Cláudia Bozza


O homem, em sua mais íntima natureza divina, é essencialmente Uno com a Realidade sustentadora do Universo e faz parte dela. Trataremos aqui da relação entre a Vontade Divina e a vontade humana. Posto que o homem é essencialmente divino, sua vontade é um fator importante no drama universal que está se desenvolvendo. É certo que o exercício de sua vontade está limitado pelo seu grau de evolução, mas sua vontade afeta em maior ou menor medida a corrente de sucessos vinculados com a vida humana.

Ainda que os seres humanos não intervenham na elaboração do grandioso drama que está sendo representado em escala universal, parece que desempenham algum papel na determinação do curso dos sucessos relacionados com a evolução humana. O papel que desempenham por meio do exercício do seu livre-arbítrio, em sua limitada esfera, parece insignificante em comparação com a grandiosidade do Universo. Isto se deve ao fato de que olhamos o homem como um simples animal, com mente subdesenvolvida, e não como um ser divino que possui ilimitadas potencialidades.

O curso do desenvolvimento do Universo está determinado pela interação da Vontade Divina com as vontades das Mônadas individuais associadas a um sistema em evolução. Talvez seja mais correto dizer que é o resultado desta interação. Nas primeiras etapas de evolução as Mônadas apenas são capazes de exercer uma influência insignificante neste drama universal, mas nas etapas mais adiantadas sua influência é enorme. De fato, à medida que ascendemos na escala da evolução e se faz mais perfeita a fusão da consciência, tanto mais difícil é localizar a linha divisória entre a Vontade Divina e a vontade monádica. Será tão correto dizer que a Vontade Divina se expressa sem impedimentos por meio das Mônadas, como dizer que a vontade das Mônadas se tornou livre e autodeterminada. Isto é inevitável porque as Mônadas derivam da diferenciação dessa Realidade Única a que chamamos o Absoluto, e, portanto não pode haver diferença essencial entre as duas vontades.

Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da evolução humana, coletiva e individual, é devido á interação da Vontade Divina com a vontade individual. Mas, em que lei se fundamenta esta interação? É evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a lei do Karma em seu aspecto mais amplo. O homem é um ser espiritual, e um ser espiritual pode desenvolver suas potencialidades divinas não pela imposição de um código de conduta exterior, mas aprendendo a fazer o que é justo e estando de acordo com a Vontade Divina por livre escolha, porque vê que isso promove o bem de todos, inclusive dele mesmo. O individuo, ao contemplar a própria natureza do Universo como uma expressão da Ideação Divina apoiada na Vontade Divina, deduz que a meta suprema da evolução e o despertar de sua natureza espiritual dependem de que ele viva e atue em perfeita harmonia com a Vontade Divina.Esta dedução o leva a corresponder-se com o Plano Divino, de maneira harmoniosa e perfeita, para cumprir bem seu próprio destino.

Aqueles que entenderam bem a doutrina do Karma sabem que o homem aprende a agir bem, não por compulsão externa, mas por decisão interna. Quando pratica o mal tem experiências dolorosas que relaciona com o mal feito. Quando faz algo de bom recebe a recompensa em forma de experiências gratificantes e felizes. Assim, associa naturalmente o que é bom com o prazer e a felicidade, e o que é mau, com a dor e a infelicidade e, de maneira lenta, mas incontidamente, evita fazer o mal praticando sempre o bem, ainda que isto lhe cause dificuldades temporais. É certo que pode tomar-lhe centenas de vidas aprender a levar uma existência justa e ter fé cega na retidão; mas é tal a natureza desta Lei que terá de assimilar esta lição cedo ou tarde. E somente quando a tiver aprendido em plenitude e estiver firmemente estabelecido na retidão, estará preparado para embarcar na viagem da própria descoberta. A retidão é a base indispensável da vida espiritual.

Isto nos leva à pergunta: "Como determinar o que é ação justa dentro do jogo das circunstâncias, ação que esteja em harmonia com a Vontade Divina ou Rta?" O homem ignora, no início de sua evolução, que existe uma Lei Divina e que só o viver em perfeita harmonia com essa Lei é que pode assegurar-lhe plenitude e verdadeira felicidade. Assim, vive de acordo com os ditames de seus desejos, resignado a colher os frutos doces e amargos que o Karma possa trazer como resultado. Como a má ação lhe acarreta dor e a boa, prazer, vai aprendendo a evitar a má ação e a evitar as tendências que o levam a fazer o mal. Deste modo, sua mente vai se libertando da carga de más tendências, o que aumenta sua cota de felicidade e permite, além disso, que a luz de Buddhi (intuição) se infiltre gradualmente em sua mente. Como fruto deste despertar de Viveka (discernimento) ele começa a perceber a natureza ilusória da vida nos planos inferiores e a futilidade em continuar aliado a interesses mundanos, de poder ou prazer temporais. Começa a intuir que até os prazeres e gozos da existência post mortem serão temporais e ilusórios, e o manterão atado à roda de nascimentos e mortes com todas as suas limitações, ilusões e misérias.

Gradualmente desperta em sua mente a compreensão de que existe um estado no campo da Realidade, acima do prazer e da dor. E assim nasce em seu coração o ideal de alcançar aquela consciência espiritual pela qual toma conhecimento de sua natureza divina, que está além das limitações e ilusões da vida inferior.

É nesse momento que deve encarar o problema de saber o que é justo e o que está de acordo com a Vontade Divina. Já tem plena fé na necessidade e na eficácia da retidão; já está determinado a levar uma vida justa; mas ainda experimenta constante confusão entre o bem e o mal, e não sabe com certeza o que fazer em certas circunstâncias. Para este homem, uma vida justa não é a vida religiosa comum, que consiste em professar a fé em certos dogmas, mas sim a adoção de uma atitude completamente impessoal, e uma conduta que esteja em perfeita harmonia com a Vontade Divina a todo o momento. Elevou-se acima do campo da moral vigente; já não está seguindo um rígido código externo de conduta, mas obedece a lei de seu próprio ser baseado em seu Dharma.

Esse tipo de ação, onde estão eliminados completamente o elemento pessoal e as preferências pessoais, é conhecido como Niskâma-Karma, que significa ação que se executa sem nenhum desejo pessoal senão o de cumprir o Plano Divino e de fazer o que for necessário, de acordo com a sua individualidade e as capacidades que possui. Pois no Cosmos nada ocorre por casualidade, e se nos encontramos em certas circunstâncias não é só porque temos que colher nosso Karma, mas também porque temos um Dharma, ou uma função a cumprir nessas tais circunstâncias. Essa função pode ser importante ou não, significativa ou não, do ponto de vista externo; mas existe, e impõe ao individuo uma obrigatoriedade em cumpri-la. Ele pode escolher não cumpri-la ou faze-lo inadequadamente, sendo que isto acarretará desvantagens e novas complicações para si mesmo e para outros.


Não podemos intervir no cumprimento do Plano Divino com nossa ignorância, assim como um peixe não pode intervir na correnteza de um rio nadando contra ela. O Plano Divino se cumprirá de qualquer forma, ainda que seja por um caminho alternativo; mas o individuo que não colabora cria complicações para si mesmo e aumenta suas dificuldades no progresso espiritual. Na realidade, a vontade do indivíduo comum é tão débil e seu livre-arbítrio é tão limitado, que sua capacidade de opor-se á Vontade Divina pode ser considerada quase nula. Entrou na corrente da vida a irá desempenhar o pequeno papel que lhe foi designado, queira ou não, apropriada ou inadequadamente.

Se todos nós estamos cumprindo o Plano Divino e, inconscientemente, estamos cumprindo a vontade de Deus, então que necessidade temos de adotar uma vida de retidão e de sermos agentes conscientes da Vontade Divina? Que vantagem tem o homem que está estabelecido no justo, sobre o homem comum que segue os ditames de seus desejos? A vantagem é enorme, mas necessitamos discernimento (Viveka) para vê-la. Enquanto o homem não estiver firmado na retidão, seu Buddhi (intuição) permanecerá nublado, seus olhos espirituais fechados, e nem sequer estará em condições de entrar para a senda do desenvolvimento espiritual que leva à realização de sua verdadeira natureza. Poderá até ser capaz de conquistar alguns dos poderes psíquicos inferiores, mas as portas do mundo da Realidade permanecerão absolutamente fechadas para ele. Nem sequer saberá que existe uma Realidade oculta por trás dos mundos inferiores nos quais sua consciência e seus poderes estão aprisionados.

É de grande importância para o individuo levar uma vida de retidão, além do que, exercerá uma grande influência sobre a vida de toda a Humanidade. Um homem justo auxilia os que o rodeiam de duas maneiras: uma, criando um centro de harmonia através do qual podem fluir forças dos planos sutis aos mundos inferiores, e assim ajudar a Humanidade, ainda que ele não esteja sempre consciente disto; outra, tornando possível, para si mesmo, o transcender das limitações e ilusões dos mundos inferiores, e assim criar, com o tempo, um outro canal de comunicação entre o mundo Real e os irreais. Todo individuo que consegue criar este canal converte-se não só num agente da Vida Divina, mas também num guia dos que aspiram desenvolver sua natureza espiritual. E quando tiver alcançado a liberação, será capaz de atender às verdadeiras necessidades espirituais da Humanidade, ainda que passe desapercebido pelo mundo externo.

Freqüentemente confundimos a espiritualidade verdadeira com a vida religiosa formal, e pensamos que seguindo as formas externas da religião e um código de ética artificial estamos levando uma vida espiritual. Mas aqueles que galgam o discernimento podem ver facilmente a vasta lacuna que separa as duas coisas, e não se deixam enganar com o palavreado e a roupagem imponente da religião com que a ortodoxia encobre sua pobreza de espírito.


Tornando à pergunta do que vem a ser a reta ação sob todas as circunstâncias, a resposta é: fazer sempre o correto, no momento correto, do modo correto e por razões corretas, até onde saibamos. Pode ser que, apesar de todos os nossos esforços, não consigamos fazer sempre o correto, mas se houver a motivação e a determinação necessária, gradualmente a presença de Buddhi (intuição) nos capacitará para ver o procedimento correto, e para segui-lo sem vacilar. A habilidade para discernir e fazer o certo só pode ser adquirida fazendo, em cada circunstância, o que nos parece mais justo e observando seu resultado. Assim, se estabelece um círculo virtuoso, até nos firmarmos na retidão; então cessa todo esforço e luta, e a vida flui fácil e naturalmente do centro de nossa consciência espiritual, no cumprimento do Plano Divino.

Mas é conveniente assinalar que somente o desejo vago e débil de fazer o correto não pode produzir semelhante transformação no caráter. Muitos aspirantes reconhecem, na teoria, a necessidade de adotar uma vida justa, e começam a fazer o correto, sempre que não interfira em seus interesses e tendências pessoais. Certamente, isto já representa uma melhora na atitude do homem comum, que nem sequer reconhece a necessidade de uma vida adequada e que atua corretamente por medo de cair nas mãos da justiça ou de criar complicações para si. Mas o indivíduo não pode estabelecer-se na retidão tendo fé no justo e fazendo o bem somente quando lhe convém ou lhe favoreça. Terá que aprender a fazer o bem em todas as circunstâncias, mesmo que possa causar-lhe perdas ou sofrimentos. Para isto, terá que estar constantemente alerta, com agudo discernimento e resolvido, serena e inflexivelmente, a fazer o correto em todas as ocasiões. Isto, provavelmente, implicará em dificuldades e angústias, porque tão logo decidimos viver com retidão, começam a surgir, como que a nos pôr à prova, todo tipo de tentações e obstáculos. Temos que suportar estas provações sem ceder, se realmente somos sérios. Somente parecerão assustadoras e dolorosas quando houver debilidade interna e tendência a vacilar, sinais de que o discernimento ainda está parcialmente nublado. O homem verdadeiramente justo entrega até a própria vida, se necessário, sem agitação ou pesar, como o testemunham mártires, santos e grandes homens.


O que foi dito mostra ao estudante a relação entre Rta e o Dharma individual, cujas idéias fundamentais podem ser resumidas assim: Rta é a Grande Lei sustentadora do Universo que se desenvolve no tempo e no espaço. A forma Real e espiritual deste Universo existe na Mente Divina, e a forma irreal e temporal que temos segue e aproxima-se, como uma sombra, da forma Real e espiritual. Neste Universo em evolução, que se projeta a partir da Mente Divina, estão imersas incontáveis Mônadas, em diversas etapas de desenvolvimento. Cada uma dessas Mônadas é parte integrante da Realidade, e tem sua própria unicidade e papel individual no longuíssimo drama que se desenvolve no cenário do Universo. Tem uma personalidade e uma individualidade que opera nos mundos inferiores, a fim de desenvolver as potências divinas que trás em seu interior, e mostrar sua singularidade individual. A personalidade e a individualidade, por um lado, são meras sombras da Mônada e, por outro, são instrumentos para o seu desenvolvimento. Este aperfeiçoamento não é casual; está dirigido, num sentido, pela unicidade individual da Mônada, e noutro, pelo lugar que ocupa no Plano Divino. Estas duas forças que existem ocultas em sua natureza eterna guiam o processo de evolução e determinam em grande parte o modelo geral de suas vidas nos planos inferiores. Representam a Vontade Divina e o Plano Divino no tocante à Mônada.

Nosso Dharma individual, no sentido mais amplo do termo, consiste em nos ajustar a este modelo e seguir a senda marcada para cada um de nós. Mas no decorrer deste desenvolvimento, desviamo-nos devido à nossa ignorância e aos nossos anseios egoístas, convertendo assim o Karma individual e coletivo num outro fator importante que deve ser considerado. Portanto, o Dharma básico de cada individuo fica condicionado sempre pelas necessidades e circunstâncias de cada encarnação, e pelo ambiente onde age, em razão do Karma vigente que deve exaurir em cada encarnação particular.

Já dissemos que a Vontade Divina não atua de uma maneira determinante na evolução, mas deixa em liberdade as Mônadas para agirem e aprenderem, ainda que com os seus próprios erros. Portanto, é óbvio que o Dharma de um individuo, dentro de certas circunstâncias, é o resultado da interação de diferentes tipos de forças que atuam sobre ele. Daí não existir um conjunto de regras rígidas a cumprir mecanicamente para levar uma vida de retidão. O único método para conhecer nosso Dharma, e determinar a linha de ação que temos que seguir nas diferentes situações e circunstâncias é manter imaculada a luz interna da intuição (Buddhi). Mas não devemos confundir esta luz com o que nos pede a mente embotada pelos desejos e preconceitos religiosos, que a toma equivocadamente como a voz de Deus, e que os políticos inescrupulosos qualificam de "chamamentos do dever". O conhecimento do nosso verdadeiro Dharma vem pela percepção espiritual, é como uma clara compreensão e não um mero pensar. Resulta da purificação da mente de toda sorte de desejos inferiores, e da libertação do servilismo ao eu inferior.

O estudante verá que esta retidão não difere muito de Niskâma-Karma. Em ambos os casos, o reto atuar é a base de todos os aspectos da vida. Niskâma-Karma também significa a ação livre de motivação e desejos pessoais; e o que a orienta é o Divino em nós, e não a personalidade. A personalidade cede à direção interna, e até se oferece prazerosa e inteligentemente para servir o Eu superior... e esta vida de retidão está aberta a todos!

Ondas Magistrais


Cantondas que cantam nas ondas o mais longo ondular
São o mais fino limiar.
As muralhas aquarelas da auréola do Ondular desmorona-se na finura do mais fino limiar.
As auras são brilhantes, estas brilhantes auras auriculares da aquarelância dos maleáveis furacões aqua-quânticos imersos a Um Magistral Comando.
Com sua magia, anda com maestria, galgando a suave primosia.

Afundai-vos de uma vez por todas nas Ondas Magistrais.
Achareis a Magistral Quietude das profundezas divinas, repousando na eternidade que a contém.
Oceano Orquestral, nuvem sideral.
As nuvens que navegam nas magistrais ondas.
Por onde anda a onda eu ainda nado no Nada.
No Magistral que dá início, a tudo acaba.
Como poeira que some do passado que galga.

Sumamos meus humanos!

Rumo à Harmonia (Trigueirinho)


Rumo à Harmonia, a via mais direta é a neutralidade
A sabedoria reveladora da lei de causa e efeito

A lei de causa e efeito, ou lei do carma, pode ser sintetizada na conhecida frase "O homem colhe o que semeia". Segundo essa lei, ações, sentimentos e pensamentos produzem efeitos que retornam a curto, médio ou longo prazo a quem os gerou. Assim, o que é vivido hoje determina o futuro.

A lei do carma foi das primeiras apresentadas à humanidade. Podemos ver seus primeiros aspectos na Bíblia, quando Moisés afirma: "Olho por olho e dente por dente", e um dos mais avançados no clássico "Bhagavad-Gîta", epopeia escrita nos primórdios da Índia, cujo personagem, o príncipe Arjuna, descobre a liberdade que advém de agir sem apego aos frutos da ação.

Quem busca o caminho espiritual se dispõe a manifestar o bem, a verdade e a beleza no próprio ser e no universo. Contudo, a mais elevada expressão da harmonia intrínseca à vida requer plena liberdade, a soltura dos laços que ligam a consciência à matéria. Para isso, é necessário mais que boas ações equilibradoras de atos negativos: é preciso neutralidade ao agir.

Caminha-se para a verdadeira libertação não só praticando o bem e assim semeando futuro promissor, pois isso ainda produz laços positivos. A libertação vem do desapego por tudo o que se faz, sente ou pensa. Embora essa condição marque adiantada etapa evolutiva, há quem se esforce para alcançá-la, apesar de o mundo em geral instigar envolvimento emocional e mental com o que se passa dentro e fora das pessoas.

Observa-se que a lei do carma visa ao contínuo progresso rumo à harmonia, sobretudo por meio do serviço ao bem universal, desinteressado de resultados. Para atingir tal meta, a via mais direta é a neutralidade.

Quando a pessoa já não tem apego a nenhum ato, positivo ou negativo, pode transcender as ligações com os fatos e, portanto, com a lei do carma. A recomendação de "estar no mundo sem ser do mundo", feita por Jesus, sintetiza a almejada situação.

A aranha cria seu universo sem se atar a ele, tece a teia sem nela se enredar. Mas o homem, ao construir sua vida sobre a Terra, comumente mistura-se nela, apega-se ao que faz e cria. É como se estivesse preso num aposento e uma pequenina vela fosse toda a luz de que dispusesse. Vê de modo difuso e faz muitas experiências em sua tão querida prisão. Tece sua teia com pensamentos, sonhos, desejos e objetivos pessoais. Assim constrói a própria vida, mesmo sem conseguir ver o verdadeiro desenho desde sempre planejado para ela. Fica emaranhado nos fios.

Mas, em dado momento, o tecelão ouve dentro de si a ordem de destruir a amada teia. É quando começa a treinar o desapego, a desatar laços antigos e a evitar ligações supérfluas. Ingressa por fim no caminho de retorno aos mundos de onde partiu como pura consciência.
A lei do carma toma quase sempre caráter negativo porque o ser humano, valendo-se do livre arbítrio, costuma fazer escolhas nas quais considera em especial as próprias necessidades e desejos individuais. Em raros casos tem em vista a necessidade geral ou algum aspecto do plano evolutivo. Devido a isso, cria mais débitos que créditos cármicos e pouco equilibra o estado de desarmonia, pois não é neutro a ponto de abandonar a formação de vínculos.
Enquanto tenta às cegas construir sua existência terrena, a lei do carma o acompanha como mestre de infinita sabedoria; enquanto devasta áreas do planeta em proveito próprio e inconscientemente se lança ao prazer e ao deleite, a dor e o sofrimento - agentes da lei do carma - são os meios mais adequados para seu ensinamento.

Vida Vívida (Masaharu Taniguchi)


"Quem disse que eu sou um covarde sucumbindo ante as dificuldades? Quem disse que sou corpo feito de alimentos? A vida não é figura de cera, não é figura de gesso. Eu sou ciclone, sou furacão, sou redemoinho. Eu transformo o ambiente, como se dobrasse um arame no aspecto que eu desejo. Eu sou uno com a poderosa força que criou o universo.
Eu sou a própria energia que da atmosfera faz o relâmpago, que transformou os raios solares em arco-íris, que faz eclodir do negro solo as rubras flores, que faz explodir os vulcões e que criou o sistema solar a partir da nebulosa.

Que é ambiente?
Que é destino?

Na hora exata, quando eu quiser, eu me liberto do mais triste destino como o peixe que se esgueira pelas fendas.
Não sou ferro.
Não sou argila.
Sou vida.

Sou energia viva.
Não sou matéria inerte moldado pela situação ou pelo destino.

Eu sou como o ar:
Quanto mais comprido for, mais força manifesto, tal como a bomba explode a rocha.
Eu sou vida que, no momento certo rompe impetuosamente a situação ou destino.

Sou também como a água:
Nenhuma barreira poderá represar-me e impedir que me torne grande oceano.
Se barrarem minha passagem colocando grandes pedras no meu leito, converter-me-ei em torrente, cachoeira, e saltarei impetuosamente.
Se me fecharem todas as saídas, eu me infiltrarei no subsolo.

Permanecerei oculto por algum tempo, mas não tardarei a reaparecer. Em breve estarei jorrando através das fontes cristalinas, para saciar deliciosamente a sede dos transeuntes.
Se me impedirem também de penetrar no subsolo eu me transformarei em vapor, formarei nuvens e cobrirei o céu.

E, chegando a hora, atrairei furacão, provocarei relâmpagos e trovões, desabarei torrencialmente, inundarei e romperei quaisquer diques e serei finalmente um grande oceano.“

Imaginando a Décima Dimensão

Parte 1:

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Parte 2:

A Impessoalidade (Trigueirinho)


Muitos fatos do mundo interior se desvelam aos homens à medida que sua consciência vai sendo permeada pela impessoalidade.

A impessoalidade começa a emergir a partir do contato com o Eu superior, mas se expressa em plenitude apenas quando as energias monádicas passam a fluir livremente nos corpos. Portanto, não se pode alcançar a impessoalidade por meio do esforço humano; ela é fruto da entrega do indivíduo ao Regente*, ao que há de mais elevado no interior do seu próprio ser. Pode-se, todavia, preparar o terreno para receber tão preciosa semente, que dos mundos sublimes alcança a vida material. Essa preparação se faz pelo desapego ao que é conhecido, pela renúncia às tendências do ego, pela busca da essência única da vida, presente em tudo e em todos.

Aquele que nos planos externos manifesta a impessoalidade não é o que trata os demais indiferentemente; ao contrário, por ter conhecido a Verdade, com reverência curva-se à presença divina em todos os seres e a eles oferece a exata porção de energia de que necessitam, levando-os, por meio de sua entrega e de sua irradiação, à soltura dos laços terrestres e ao contato com horizontes mais amplos.

Para que possais ver o nascer do sol, tendes de subir às altas montanhas. Somente ali, distantes do cenário da vida pessoal, podeis banhar-vos nos raios da verdadeira existência, que cada dia convida-vos a renascer.

Não tenteis fazer, com vossas mãos, o que o Espírito deve fazer em vós. Deixai-vos transformar em chama pura de devoção e entrega, e elevai-vos ao Criador. Assim, e somente assim, podereis ver Sua sublime face refletida em todos os vossos irmãos e, junto deles, cumprir a tarefa a vós designada.

Uma nova realidade já se mostra no planeta, a realidade do Espírito que, livre dos grilhões materiais, eleva a Terra aos céus, trazendo de lá os sagrados bálsamos dos tempos vindouros. Sois parte dessa grande Obra, sois portadores da nova semente. Regai-a, pois, com pura água da vida interior; seus brotos robustecidos expressarão a promessa cósmica, supremo destino de todos os homens.

*Regente - Consciência ou núcleo encarregado de captar e transmitir o impulso evolutivo para todas as partículas existentes em determinado âmbito e de conduzi-las à realização.

Tormenta Galante


Desvaneça nesta Dança Mística
Desanuvie nasça da característica
Desapegue flua o fluxo do vento
Desde onde fura seu tormento

Galantes nuvens pomposas
Gargalhantes vem sinuosas
Gorjeiam para os arvoredos
Galopam ocultando rochedos

Bonitas formas nuas no céu
Chovendo nuvens que galgam
Bonitos céus nus na forma
Galgando chuvas que nublam

A nuvem que então desanuviar
É que nua vem tão crua e pura
No doce desnublar por entre o ar
O desmantelar da visão escura

E a Dança Mística desvanece
Desvanece os sonhos neblineiros
Esclarece os dotes jardineiros
Na clareza do desvanecimento... que esclarece!

Com a minha Desvaneciência.